sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Desflorir- Soneto


Flor de maracujá-  helenachiarello-fotografias.blogspot.com


Não colhas essa flor do teu jardim:
Da sua graça é tal a brevidade,
Que quando a colhes me parece a mim,
Alguém morrendo em plena mocidade.

Se a beleza é a ânsia que te invade,
Semeia e faz o bem! Fazendo assim,
Tu farás um jardim da humanidade,
Onde jamais as flores têm fim.

Verás então que as flores mais formosas
Não são as que se colhem com a palma
Da mão que enfeita jarras donairosas:

Mas aquelas que tu, à chuva, à calma,
Semeies (as mãos cheias, dadivosas),
Na terra em que pisar a tua alma!

                Florentino Alvim Barroso, "Vento e Ventanias"-Sonetos

sábado, 6 de agosto de 2011

Soneto-O jugo

Quinta dos Loridos - Bombarral
Neste mundo há fatais fatalidades,
De que escapar não pode o mais ladino:
A velhice é escrava das saudades,
Da devoção, escravo, o peregrino.

As mentiras são servas das verdades,
Condenado a dobrar, está o sino.
Porque nós, por incógnitas vontades,
Do berço já trazemos o destino.

Não há poder contra este poderio:
A travessia é obrigada à ponte
Como obrigado ao leito, está o rio.

É este o jugo a nos curvar a fronte.
Pois ódio seja, amor, calor ou frio,
O destino da sede é ir à fonte.

Florentino Alvim Barroso, "Vento e Ventanias"- Sonetos