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domingo, 2 de julho de 2017

Tardes Mansas

 "Paisagens Naturais" de Helena Chiarello

Os dias quentes de verão eram o repouso imposto aos corpos exaustos, castigados pelo trabalho árduo do campo.
A sombra das laranjeiras casava-se com a folhagem oferecida da ramada, donde pendiam agora os cachos negros de verdelho e retinto e que serviam de suporte a ninhos de cerezinas que espreitavam curiosas os estranhos vultos humanos...
...Mas as tardes tinham outro encanto!
O tempo ia correndo preguiçoso entre o rio e um livro à sombra da laranjeira pingando flores intensamente brancas, intensamente perfumadas...
...e deixava  o "amor" adormecido no meio  do romance e fazia-me ao rio com um pequeno e rudimentar apetrecho de pesca...
Tardes de pura quietude!
 Deixava-me absorver pela  mansidão das águas e dos pequenos peixes em recreio, que brincavam com as libelinhas que sobrevoavam a capa das águas  que também  dormiam e onde eu me espelhava juntamente com os choupos  que emolduravam o meu corpo.
Era um cheiro a frescura, a água lavada, misturado com o lodo verde onde serpenteavam enguias e trutas esguias...
...e lançava o meu isco...e sorria...
...Os peixes, numa desconfiança atrevida, apareciam parcimoniosamente picando o anzol, com um "não te quero" ..."mas volto"...
...e davam meia volta como num bailado sem vénias!
... E... nada!
Mas era gostosamente doce e relaxante, sentir o vai-e-vem, o sossego que os barbos e bogas me transmitiam...
...e eu não queria o peixe...eu queria o prazer da tranquilidade das águas sobrevoadas pelas libelinhas , e que se agitavam em tremura, juntamente com o voo rasante das andorinhas...
...E neste relaxamento induzido pelo coaxar das rãs e o borbulhar das águas transparentes nos seixos, onde o céu azul mergulhava, transportava-me para o meu lugar seguro, onde não tinha necessidade
de defesas nem de escudos...
...Era eu própria!
Deixava-me embalar nesta onda de paz...
...olhava o Universo...
...e sentia-me à porta de minha Casa!
Corria uma maré frisante que arrepiou os meus cabelos acordando-me do torpor de pensamentos.
Mergulhei na água cristalina que me acordou...
...as folhas dos choupos dançavam dizendo adeus...
...e enfeitei os meus olhos com espelhos de água e libelinhas num entremeio de renda por onde os raios de sol penetravam...
... bordando este lençol  que cobre ainda o meu berço de menina!


Manuela Barroso
( reeditado)


9 comentários:

✿ chica disse...

Sempre lindo e emociona te ler! Adorei! bjs, tudo de bom,chica

Gracita disse...

Querida Manuela
O cenário e as emoções que exalam de sua prosa nos enreda nessa trama de sentimentos e somos acolhidos nessa leitura de imensurável beleza
Sabes que pude visualizar a cena tal a riqueza de detalhes e poesia em cada um desses dizeres tão emocionados
Belíssimo conto que me envolveu num deleite de pura gostosura
Beijos minha querida e uma feliz semana

Ana Freire disse...

Um texto lindíssimo, em que cada palavra nos transmite encanto, serenidade... e nostalgia de um tempo... em que havia tempo...
Um trabalho maravilhoso! Magnífica inspiração, Manuela!
Beijinhos! Continuação de uma feliz semana!
Ana

leninha brandao disse...

Delicadas palavras descrevendo um sentimento subentendido. Uma idéia que existe na cabeça e a alegria contida nesta prosa poética.
Gosto de te ler, sempre!

Vanessa disse...

Passando pra conhecer o blog, gostei bastante. Que texto belo, transmite paz e saudade de um lugar especial.
Beijos.

Jaime Portela disse...

Um texto delicioso, idílico...
Gostei muito, creio que não tinha lido a edição anterior.
Manuela, um bom fim de semana.
Beijo.

Manuel Luis disse...

Não falta nada mas acrescento os nenúfares onde pousa o meu olhar.
Bj

Maria Rodrigues disse...

Palavras delicadas e uma fotografia linda.
Bom fim de semana
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco

Diná Fernandes de Oliveira Souza Souza disse...

Bom dia Manuela, estive aqui sexta passada, não visualizo meu comentário, repito então.
Belas expressões e imagens poéticas em seu texto.
Tenha um feliz findi!

Bjs!